Biografia
?Resgatado pelo Rap? : Correria MC lança novo single
Prévia do CD ?Para que o Rap continue resgatando vidas? é lançada pelo MC que corre para vender singles pelas ruas e shows de São Paulo
São Paulo, SP ? ?Fui resgatado para poder te resgatar?, essa talvez seja a frase mais marcante do single ?Resgatado pelo rap?, lançado hoje ? 8 de outubro ? pelo Correria MC, através da myspace (www.myspace.com/correria).
Sem medo de relatar as experiências boas e ruins que passou na vida, o rapper, que hoje tem 22 anos e já esteve preso por quatro vezes foi batizado como Correria poucos dias antes de deixar o presídio há oito meses.
Chamado de Dinho pelos amigos e pela família, o apelido hoje se tornou a realidade do jovem que sonha em viver de rap e em menos de quatro meses já vendeu 6.050 cópias do single Show de Rap em shows e também na galeria do rap, na famosa 24 de maio.
Da mesma forma descontraída com que aborda as pessoas nos shows oferecendo o próprio CD, ele responde as muitas perguntas da entrevista que revela um jovem bastante sonhador e disposto a mudar a própria realidade.
O single
Num final de tarde tedioso, dentro de uma cela de quatro metros quadrados, com mais 18 homens, Jondson Moreira dos Santos, o Correria, pegou os marmitex vazios e escreveu a letra de Resgatado pelo Rap. ?Eu comecei a escrever como era na rua e como dói estar longe de tudo que você mais ama. Não só esse single, como todas as minhas músicas, são a história da minha vida. Poucos caras tem coragem de falar que eram viciados em cocaína e que roubavam para manter o vício. Tô dividindo com o mundo tudo que fiz desde o dia do meu nascimento e trago comigo a ?responsa? de quem não pode errar?.
Quando questionado sobre quem é o Correria hoje, ele reconhece ser um ?muleque? que acredita em sim. ?O vulgo que veio do crime virou um nome que hoje tenho muito orgulho. Hoje o Correria é um cara que trabalha. Trabalha de verdade e luta pelos seus sonhos, que prometeu para si mesmo honrar sua família?.
Assim ele prossegue, cantando e exaltando a própria mãe, prometendo dar orgulho a ela, que como ele mesmo conta ?sempre passou humilhação nas portas de presídios?.
Amor é só de mãe
A descontração e o jeito esperançoso vão embora quando fala da mãe, cheio de amor. ?Ela é a melhor mãe do mundo?. Com três irmãos, Correria conta que foram abandonados pelo pai quando crianças e que a mãe pegou tudo que tinha em Salvador e resolveu tentar a vida em São Paulo. ?Ela trabalhou a vida toda para ganhar um salário mínimo e conseguiu criar os quatro filhos, sendo mãe e pai?.
O jovem, que sempre brinca que quer uma namorada, revela que não se empolga com as garotas que conhece em shows, justamente porque já esteve preso por quatro vezes e reconhece. ?Minha mãe nunca me deixou sozinho, mas foi a única mulher. De todas as vezes que fui preso, eu namorava, mas só a minha mãe foi mulher suficiente para ir me ver em todas visitas?.
Atualmente, ela está em Salvador e não são raras as vezes em que ele chora de saudade, apesar de se falarem sempre. ?Ela tem medo porque não sabe o que eu estou fazendo aqui, mas eu falo que estou no corre do Rap e ela diz ?então ganha muito dinheiro porque eu quero a casa de piscina que você falou que ia me dar?. Ela tenta mostrar que não fica preocupada, mas eu sei que ela fica?.
E é justamente essa preocupação e ligação que fazem Dinho, como ele é chamado pela mãe, promete recompensar a mãe por todas orações que ela faz. ?Amo minha mãe mais que tudo?.
O crime, os trabalhos e o SHOW DE RAP
Ao lembrar a própria história, de garoto que deixou o pelourinho, Salvador e os encantos da Bahia para tentar ?ganhar? a vida em São Paulo, além da fase do vício em cocaína e dos furtos e roubos para conseguir a droga, Correria tem saudade do tempo em que teve o primeiro contato com a música, ao ir na igreja com a mãe. ?Lá eu cantava. Gosto de lembrar desses momentos, foram os melhores da minha vida?. E neste caminho ele seguiu, quando, em 2003, subiu pela primeira vez num palco e cantou ?Jesus chorou? do grupo Racionais MCs. ?Mas, desde 1998 que escuto Rap. Depois da primeira música, não parei mais?, revela o MC, que hoje afirma fazer Rap para resgatar outras vidas. ?Quando as crianças me param na rua e dizem que vão fazer Rap porque me ouvem, fico assustado. Já pensei até em desistir, mas não dá mais para voltar atrás?, considera.
Antes de se envolver com o crime e pensar em levar seriamente a profissão de MC, Correria já vendeu balas em ônibus e foi garçom de barraca de praia, além de ter sido camelô e ter feito um curso de cabeleireiro assim que saiu da detenção. É assim que revela um sonho diferente do Rap. ?Tenho vontade de ter um salão, mais seria O SALÃO?, diverte-se
No entanto, não conseguir mais deixar de lado a paixão pelo ritmo e a poesia do Rap, que Correria divide sua vida entre acordar cedo, arrumar a própria casa, ir para a galeria do Rap vender cópias do primeiro single e gravar, além de participar de shows e eventos dos amigos e conhecidos.
?Quantos corres eu já fiz para ir no show de Rap? Quantas catracas eu pulei para ir no show de Rap? Esse é o meu show de Rap !? E é com essa verdade que Correria se apresentou, há pouco tempo, no universo do Rap paulista, onde cada dia, mais e novos MCs surgem na cena, porém, dificilmente, todos conseguem
prosseguir, mas, inspirado pelos amigos e pelos fatos cotidianos que ele faz questão de relatar, o jovem é uma promessa no Rap brasileiro.
?Ontem eu estava chegando em casa e tinha um ?muleque? na rua, jogando bola e ele disse para o amigo ?eu vou cantar que nem o correria?. Pensa como eu fiquei todo bobo e feliz porque eu olho com outros olhos aqui na quebrada em que os ?muleques? estão tudo no tráfico. Eu estou seguindo firme na minha caminhada?.
Assim, seja no ônibus, em casa, durante as madrugadas, quando está muito triste ou com saudades das pessoas que ama, Correria se dedica a compor as próprias músicas e depois, repassa-as ao também MC Projota, do estúdio Projeção.
Na estrada do Rap desde 1998, ele já passou por alguns grupos, fez uma primeira música com 15 minutos de duração e já teve um grupo de Rap gospel com um amigo, que levava o nome de ?Ideologia Sagrada?.
Apesar de ser apenas MC, Correria se engaja em todo tipo de evento ligado ao Hip-Hop e é nestes meios que consegue vender o próprio single. Às vésperas de viajar para Curitiba, onde fará um show, comprou 500 mídias e espera vender todas elas na capital paranaense e mais, confessa que se não fosse MC, se arriscaria nas pick-ups. ?Eu adoro ver o Dj nos toca-discos mandando bem. Meu olho até brilha. Sempre quero ajudar só para estar mais perto?, brinca.
O Rap, o resgate e o futuro
Alvo de críticas ? o que até hoje nenhum MC esteve isento ? Correria reconhece que gosta de falar sobre isso, principalmente quando dispara em redes sociais, como o twitter, que ele acredita em si mesmo mais do que as demais pessoas. ?Algumas pessoas me desprezavam por eu ter acabado de sair da cadeia. Já teve gente que falou para os próprios filhos ?não quero você andando com o Correria?. Já fui excluído de vários shows, viagens e muito mais, só pelo fato de eu ter errado no passado. Tem gente que fala de revolução e de energias positivas mais vive no medo e não acredita em outras pessoas, mas, eu acredito muito em mim porque sei que minha mãe não teve filho para ser derrotado, então, já me sinto um vencedor por estar vivo aos 22 anos. A maior parte dos meus amigos morreu antes dos 18. O que seria desse menino sonhador aqui se não fosse o Rap? Meu passado foi tenso, mas o dia de amanhã só pertence a Deus e hoje estou mostrando que tudo é possível para aquele que acredita em si mesmo?, enfatiza.
Por outro lado, Correria, como o próprio nome lembra, não para. Como inspiração, ele tem o MC Rashid, que ele considera com uma postura madura. ?Sempre aprendo alguma coisa com ele?, conta.
Sem gostar de fazer muitos planos ou pensar no dia de amanhã, Correria, que tem muitos sonhos, entre eles dar a casa com piscina para a mãe, encontrar uma ?mina? firmeza e viver do Rap, ele tece algumas críticas ao universo do Hip-Hop, especialmente ao público, que ele não considera fiel. Desde o ano 2000 que frequenta as lojas da galeria do Rap no centro de São Paulo e se recorda de quando o local abrigava apenas lojas de CDs e salões de cabeleireiro. ?Hoje virou um shopping praticamente. Falo isso de boa?, diz o MC, que acredita que hoje, a maior dificuldade não é vender produtos ligados ao Hip-Hop, mas realizar shows de Rap. ?Quando eu era pequeno, meu irmão me levava em alguns shows e nem dava para andar direito, de tanta gente. Hoje, é difícil ver 100 pessoas num show. O público do Rap não é fiel, principalmente esta nova geração?, pontua.
Contudo, além de apenas criticar, o MC sugere caminhos de evolução. ?Um MC poderia parar de falar mal do outro nas músicas. As coisas não mudam assim e a fama fica passageira. O Rap só vai melhorar quando todos estiverem unidos numa só voz?, acredita.
Por isso, ele trabalha arduamente para após o lançamento do single, colocar nas ruas o primeiro CD Promo. ?Quero poder vender muitos shows ainda, mas apenas quando o CD sair. Para chegar até lá, agradeço a Deus e parceiros como Projota, Rashid, Terceira Safra, Dj Caíque, Dj Zala, o pessoal das lojas Drump, do Projeto Origens e as pessoas do Quilimbo Hip-Hop, bem como toda família Black Clã. Minha história é essa. Eu sou ex- 157 (artigo do código penal que corresponde a roubo), fui resgatado pelo Rap?.
E, apesar de toda história, Correria reconhece ser feliz e finaliza ?ainda não tenho tudo que quero, mas amo de verdade tudo que tenho?.