Criolo expande os limites do rap e conhece o amor de SP

Sábado 13 em São Paulo, fila na rua Augusta, sentido Jardins, beirando a madrugada. O destino é a galeria América, antigo "point" clubber nos anos 1990 e atual sede do clube Hole, reduto de alguns dos melhores shows e festas de rap da cidade.

Na pista, sons clássicos de Sabotage e Racionais se conjuminam com sucessos de Emicida, Rael da Rima e Kamau. Ninguém parado, o baile esquenta. A festa é boa, mas o balanço é só preparação: todos estão à espera de Criolo, que vai se apresentar ao vivo em algumas horas.

Kleber Gomes está almoçando no escritório de sua assessoria de imprensa, em Pinheiros. Desde que lançou seu segundo disco, "Nó na Orelha", e viu seu nome artístico, Criolo, ganhar o mundo, o cantor, compositor e rapper passa bastante tempo por lá.

São muitos os compromissos. Ele acompanha os últimos detalhes do lançamento de seu primeiro clipe oficial, da faixa "Subirusdoistiozin" (subiram dois tiozinhos, quer dizer, morreram dois homens), acabou de gravar o programa "Ensaio", da TV Cultura, e participou de um grande show em homenagem a Itamar Assumpção. Isso sem contar os programas de TV e os pedidos de entrevista, que já não dá conta de responder.

Criolo

Caetano

O evento mais esperado, porém, é o próximo Video Music Brasil, festa de premiação da MTV, que rola em outubro. Criolo vai dividir o palco com Caetano Veloso.

Cantarão sua música mais famosa, "Não Existe Amor em SP", que virou tema, slogan e espécie de hino poético-melancólico sobre a solidão na capital paulista.
"É uma grande canção. 'Sampa' é sobre Sampa. 'Não Existe Amor', como 'Ronda', do [Paulo] Vanzolini, é Sampa. Não é só porque são canções feitas por paulistas, é que são as palavras e os sons vindo de dentro. Paulistas também podem escrever 'Sampas', mas quase ninguém pode escrever coisas como 'Ronda' ou 'Não Existe Amor'", analisa Caetano. E completa: "No mais, Criolo, doido ou não, é grande em todos os outros momentos do CD. E desde antes."

A ideia da parceria partiu de Caetano, em conjunto com a MTV. "Ele gravou um programa para a emissora e, numa conversa, surgiu o nome do Criolo. Caetano disse que o conhecia e gostava do trabalho dele, e daí veio a primeira faísca", conta Zico Góes, diretor de programação da MTV. "Ambos têm algo em comum além da música, essa coisa de cantar como quem tem uma missão", afirma.

"Ele é um gênio da música mundial. É uma honra saber que olhou para o meu trabalho. Custo a acreditar que isso está acontecendo comigo", diz Criolo sobre Caetano.
Pensa um pouco e continua. "Recentemente, subi ao palco com GOG, Dexter e Edy Rock. Foi outra grande honra. Tenho sido abençoado", afirma, falando de seus encontros com grandes nome do rap, o último deles, integrante do Racionais.

Com 35 anos, 23 deles dedicados ao rap, Criolo vê sua carreira decolar sem tirar os pés do chão. "Meus amigos dizem que chegou a hora da colheita. Eu digo que é a hora de espalhar as sementes", analisa, sentado no sofá, e faz um gesto de quem está abrindo uma janela em cima da cabeça.

"O Criolo quer colar, pra somar" -- na frente do clube Holle, o moço de camisa polo e boné repete a rima de "Lion Man" (o título faz referência a um seriado dos anos 1970 sobre um samurai que virava homem-leão para defender a justiça no Japão feudal).

A faixa é um dos hits de "Nó na Orelha", álbum lançado neste ano e apontado como pioneiro por misturar o rap a ritmos como reggae, bolero e samba.

Produzido pela dupla estrelada Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, o disco costura habilmente um painel de recortes sonoros. A voz charmosa e a poesia de Criolo, fruto de sua história e de seu espírito conciliador, é o rejunte dessa colagem. "Não importa o ritmo, sou sempre eu, minha verdade."

Criolo tem apresentado dois formatos de show. Uma versão tem banda poderosa, com nomes como o violonista revelação Kiko Dinucci, além de bateria, piano, baixo, metais e duas backing vocals. A outra aposta na formação clássica do hip-hop: DJ e MC.

O público fiel do rap tem assim a chance de ver um show com estrutura caprichada, enquanto os novos fãs, que acabam de conhecer o universo dos rimadores, podem sentir a pancada de ouvir um rapper disparar suas letras apoiado só pelas batidas e pelo coro de aliados.

São duas da manhã quando Criolo chega ao clube, acompanhado de Ganjaman e de seu companheiro de palco e de rua, DJ Dan Dan.

Esse será um show sem a banda. O grupo atravessa a porta de entrada e passa a ser acompanhado por várias pessoas. Abraços, agradecimentos. Criolo se concentra como um lutador prestes a entrar na arena. Mais de mil pessoas o esperam.

Solteiro, filho de mãe professora e pai metalúrgico, Kleber virou Criolo no rap. Com Dan Dan, criou a Rinha dos MC's, o maior "campeonato" de rimadores do país, que revelou nomes como Emicida.

Por volta dos 12 anos, escreveu sua primeira letra e "maravilhado" mostrou-a para o irmão mais velho, Clayton, que aprovou. Aos 13 já se apresentava. Durante muitos anos, os palcos eram quadras de escola, ruas e igrejas.

O combustível para as rimas vinha das ruas, do cotidiano e de pessoas como dona Conceição. Era sua professora de história no colegial (atual ensino médio), época em que dividia a sala de aula com a sua mãe, Maria Vilani, que, por incentivo do filho, havia decidido voltar a estudar. Os dois se formaram juntos.

Educadora que criou três meninos e duas meninas enquanto cursava faculdade de filosofia, poeta que escreve sob o pseudônimo de Vitória Régia e organizadora de um sarau e encontro filosófico que é motivo de orgulho no Grajaú, Maria é o xodó do filho.

"Tudo o que eu disser de bom sobre minha mãe será pouco", derrama-se. No caderno que leva na mochila, segundo um passarinho verde, tem uma nova letra em homenagem a ela.

Criolo

Quase três da manhã, o show começa. O teto pinga. O calor é de rachar. Nos microfones, Criolo e Dan Dan. Nos pick-ups, DJ Will.

Criolo vira um "monstrão" no palco. Aponta os braços na direção do público como se eles o ajudassem a disparar as rimas. Ninguém olha pro lado e o conjunto de vozes parece empurrar as paredes. "Eu vou levar esse dia pro resto da minha vida", ele grita.

No repertório, algumas faixas de "Nó na Orelha" e outras do ótimo "Ainda Há Tempo", disco de 2006 que foi redescoberto graças ao recente sucesso de Criolo.

O rapper discursa, dá conselhos sobre "correr" pelo que é certo e aceitar as coisas boas e honestas que a vida pode oferecer.

Emocionado, Criolo chora, amparado por Dan Dan. A multidão declama a versão que ele fez para a canção "Cálice", de Chico Buarque ("A ditadura segue meu amigo Milton, a repressão segue meu amigo Chico, me chamam Criolo, o meu berço é o rap, mas não existe fronteira pra minha poesia").

O público extasiado repete "Cri-o-lo, Cri-o-lo". Quando o show termina ainda tem gente chorando, outros saem calados, satisfeitos.

Dois garotões sobem as escadas do clube em direção à rua: "Aí, mano, não falei que valia a pena?". O outro, lavado de suor e atônito, faz que sim com a cabeça.

Envolvido com diversos projetos sociais e ambientais, para muitos jovens Criolo é professor, daqueles que cativam pela sinceridade. O respeito pelos alunos, ele aprendeu quando ensinava educação artística na rede pública.

Não seguiu a carreira, "uma missão de construção humana, que deveria ser mais valorizada na prática", talvez porque já tivesse abraçado outro trabalho revolucionário. O rap, sempre o rap.

"O rap é mais do que música, é um movimento de reconhecer e ser reconhecido, é a sensação de pertencer a algo maior, coletivo. É um irmão mais velho, aquele que te fortalece, é levar amor às pessoas", define.

Homem sério, dono de um carisma encantador e de uma gentileza sem afetação, Criolo comemora a agenda de shows lotada, mas segue no seu ritmo, só no sapatinho. "O ego é uma coisa poderosa, capaz de destruir uma pessoa. Sigo os conselhos da minha mãe, mantenho os pés no chão."

Confira: aqui a letra de "Não Existe Amor em SP"

 

 

Acredite nesse 'hype'
FERNANDA MENA, editora da Ilustrada

Para o bem do próprio rap, é preciso contradizer um de seus maiores hinos: "Don't Believe the Hype", do Public Enemy.

Isso porque, para além do "hype", de ser o atual objeto do desejo, na carne e na música, MC Criolo tem, sim, o que dizer e mostrar.

Ele fez as escolhas certas -- líricas, sonoras e de estilo -- no momento certo, após 23 anos de uma carreira obscura em um gênero cercado de preconceitos.

Enquanto o rap é fonte primordial da música pop norte-americana há pelo menos dez anos, o Brasil só agora flerta com a possibilidade de democratizá-lo. E Criolo faz parte desse movimento ao criar uma ponte entre periferia e centro, pretos e brancos, manos e hipsters.

De um lado da ponte, suas letras ampliam o repertório do rap ao extrapolar o conteúdo de denúncia social. Por isso, do outro lado da ponte, elas não são mero objeto de sociologismos.

O artista usa a linguagem cifrada dos MCs. Mas, quando temas característicos do rap nacional, como o crime e a desigualdade, dividem estrofes com a solidão na metrópole e o amor não correspondido, fica fácil penetrar no seu dialeto. O discurso se torna universal.

Essa política de inclusão lírica é também musical. "Nó na Orelha", disco de 2011 que consagrou Criolo, intercala samba, reggae e bolero às faixas de rap com produção de qualidade inédita no gênero, a cargo de Daniel Ganjaman.

E houve um elemento crucial para que as escolhas certas e o momento certo, de fato, funcionassem: carisma.

Boa-pinta e bem-humorado, Criolo não precisa posar de mau e intimidar. Ri, sorri, brinca, corre e dança em suas apresentações ao vivo. Sua atitude, apesar de um tanto combativa, é também festiva.

Se para toda regra existe uma exceção, o decreto que o Public Enemy fez nos anos 1980 parece ter encontrado a sua. É possível acreditar no "hype".

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/966018-criolo-expande-os-limites-do-rap-e-conhece-o-amor-de-sp.shtml


Por: Vivian Whiteman (Folha.com) em: 01/09/2011

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