São Paulo na ponta da caneta

Álbuns de rap contextualizam a maior metrópole da América Latina


Não dá pra descrever, numa linda frase (...)”. Impossível de ser contextualizada, a maior metrópole da América Latina – São Paulo – na ponta da caneta vira poesia e música. Com ou sem amor, a beleza e a feiúra se fundem com as ruas, vielas, pobreza e riqueza.  Tudo é São Paulo. Gigante, perigosa e acolhedora. Adjetivos não faltam para a cidade que abriga quase 11 milhões de habitantes e ao deixar de lado os problemas pontuais da periferia é retratada – com plenitude – em três diferentes álbuns lançados neste ano. 

Crônicas da Cidade Cinza, do Rodrigo Ogi, ZeroOnze EP, de Mamuti Nus Corre e "Não existe amor em SP", single do disco Nó na Orelha, de Criolo chamam atenção não só pela qualidade musical, mas por chegarem à cena do rap brasileiro com um novo jeito de falar sobre São Paulo.

Para quem ouve, a vontade é sair dançando, como confessa o pizzaiolo Moisés dos Santos, 30 anos, quando fala sobre a canção “Não existe amor em SP”. “É um som que traz uma liberdade. É um com verdadeiro, dá vontade de sair dançando. Toca a alma”, diz o paulistano que se vê refletido na letra e batida da música. E quando a escreveu, foi justamente nisso – ou não – que Criolopensou. “Escrevi essa letra depois de um dia, em que, caminhando por São Paulo, passei a observar os escombros da cidade. Olhei para aquela destruição – voltada para o progresso, sabe?! – e percebi os graffitis lutando para dar vida a uma cidade moribunda. Aquilo me deu um mal-estar, mas também foi um momento de sanidade, de reflexão sobre a cidade e o que ela divide comigo. Da dor, que de vez em quando ela impõe”, conta o músico sobre o momento de concepção.

Poética desde quando Caetano Veloso compôs “Sampa” e tornou a esquina da avenida Ipiranga com a São João uma das mais famosas do país, a cidade mexe com os sentimentos de quem canta, compõe e ouve. Os graffitis que chamam a atenção de Criolo são os mesmos que ilustram a capa do disco deOgi, que em faixas como “Cidade com nome de Santo”, “Eu tive um sonho”, “Noite fria”, "Profissão perigo", "Monstro gigante", "A vaga" e “Eu me perdi na madrugada” mostram uma São Paulo realmente enorme e que poucos conhecem. “Eu tive a sorte de conhecer São Paulo de ponta a ponta graças a pichação e pude ver o quanto essa cidade é encantadora. São vários mundos dentro da metrópole, é pura inspiração”, relata o MC. Diante de um pedido para contextualizar o disco ou responder por que dedicou a obra a cidade de São Paulo, Ogi resume: “O disco reflete a minha vida. Tudo que está ali sou eu”. Ogi conta como é neto de uma pernambucana que se casou com um japonês. Casal que formou uma família no interior de São Paulo e o inspiraram a compor “Eu tive um sonho”. “A vida toda convivi com as pessoas vindas do Nordeste e sempre ouvia suas histórias. Isso me inspirou a letra. Os nordestinos fizeram essa cidade. Construíram esse monstro gigante”, frisa.

A grandeza da cidade foi também o que inspirou o MC Mamuti NusCorre. Aos 21 anos ele dedicou o nome do seu primeiro trabalho solo ao código telefônico da cidade, que no disco ele chama de Gigante de Concreto, na faixa Paulistano que ele continua. “Ela é confusa, atraente e repulsiva (...) não é de hoje que é musa”, diz na faixa “Metrópole”. O nome do EP vem ainda do ano 2 (011) e também por ter as mesmas iniciais do local onde vive o rapper. “E ainda por toda a paulistanidade das músicas”.


São Paulo sociológica, antropológica e geográfica:  apenas música
Todo esse retrato da metrópole, chama atenção de pesquisadores, como a socióloga Jéssica Valeriano. Na área da antropologia urbana, ela avalia a relação de amor e ódio existente nas letras. “Os MCs são moradores da cidade e isso é natural na obra de arte: expressar o cotidiano e é justamente essa preservação da autonomia e a peculiaridade da sua existência frente as superioridades da sociedade, da herança histórica, da cultura e da técnica da vida que os músicos refletem em suas músicas e discos”, frisa.

Para ela, os habitantes deixam de reagir com sentimento e passam a agir com o entendimento, ou seja, com o racionalismo. “Essa é uma forma de mecanismo de defesa contra a intensidade e a velocidade das imagens e dos impulsos, e sem essa racionalização o indivíduo se desintegra a coletividade. Todas as coisas são feitas por desconhecidos na grande metrópole, isso torna tudo mais objetivo, não há interferência das relações pessoais”, completa.

Já o geógrafo Alex Cristiano vai além. Para ele, quando o rap é considerado, é notório, dentro da geografia urbana, a questão do local na abordagem. Para ele, os discos não representam um resgate da regionalidade de São Paulo porque esta polarização regional nunca deixou de existir. “Creio que, sem exceção, todo rapper fala de seu cotidiano e de sua quebrada e do meio em que vive. O que todos têm em comum é que em algum momento se referiram ou se referirão a cidade de São Paulo porque esta expressa de forma mais clara as problemáticas sociais. O motivo da cidade estar no topo, em tamanho destaque no cenário musical é o bairrismo acompanhado por desenvolvimento histórico,  além de estar no topo da hierarquia urbana brasileira, o que significa dizer que ‘todas’ as cidades e regiões mantém relações com a ‘Cidade Cinza’, seja através das linguagens que necessitem do ‘ZeroOnze’ ou mesmo para frisar que realmente ‘Não existe Amor em SP’”, contextualiza.

Sobre esta última, Criolo lembra que dedicar uma faixa do seu álbum a São Paulo se deve ao fato de morar no município há 35 anos, no entanto, acredita que não foi proposital. “Na letra, eu não falo de um estado no sentido geopolítico, mas sim de estado de espírito. Eu poderia estar falando do Rio de Janeiro, ou da minha querida Fortaleza. E não estou falando mal de SP”. Por outro lado, ele diz que passou a perceber a “falta de amor” na cidade quando notou que por mais que as pessoas demonstrem sentimentos, sejam em atos grandiosos ou em momentos simples do cotidiano, parece que nunca é o suficiente. “São Paulo é massacrante. Mas existe amor, sim. Em cada pessoa que luta por melhorias, em cada pessoa que se preocupa com o próximo. Eu amo a cidade de São Paulo, mas não amo o que acidade faz com seus cidadãos. Quem nunca não se sentiu amado nessa cidade?”, questiona.

A contradição da falta ou da presença do resgate cultural, histórico e geográfico não tiram a beleza das canções, que continuam emocionando. O historiador e MC paulistano Vinícius Moura Mendes de Souza, 26 anos, acredita que as músicas se completam e falam, cada uma, da sua forma, sobre o que é a cidade. “Às vezes sem amor, às vezes com amor, caótica, mas ao mesmo tempo uma cidade que encanta”, diz. De acordo com ele, o primeiro sentimento ao ouvir os discos foi de alívio. “Cada um enxerga a cidade de uma forma, mas todos sabemos seus problemas e suas belezas. Pra mim, é muito importante que tenhamos essas músicas sobre a cidade, sobre as metrópoles em geral. Muitas vezes, as letras falam sobre o que não enxergamos, nos abrem os olhos e nos remete a refletir sobre o nosso papel dentro dessa cidade”, acrescenta. E até para quem não vive nela, isso é perceptível, como no caso do rapper e comunicador Marcus Vinícius, de Nova Iguaçu. “Achei incrível a forma que os três MCs mapearam São Paulo em seus álbuns”.

Assim, boa São Paulo aos ouvidos.

Baixe os CDs

Criolo - Nó na Orelha 
Mamuti NusCorre - ZeroOnze EP
Ogi - Crônicas da Cidade Cinza


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Por: Jéssica Balbino em: 01/08/2011

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